domingo, 4 de julho de 2010

O que rodou no primeiro semestre de 2010



Ariel Pink's Haunted Graffiti
, "Before Today" - 8/10
Pop orelhuda (não óbvia) transmitida por sobreposição de camadas numa telefonia com sinal inconstante. O saber fazer é uma coisa muito bonita, e Ariel Pink sabe.

Beach House, "Teen Dream" - 8+/10
Regresso ao dream-pop e chegada ao auge do curto (e deveras interessante) percurso da banda de Baltimore. Ver post do concerto do Lux Frágil.

Blood Red Shoes, "Fire Like This" - 7/10
Melhorou-se a técnica, manteve-se a urgência e arriscou-se. Belo disco de rock.

Crystal Castles, "Crystal Castles [2]" - 9/10
A revolução industrial com contornos obscuros deixa de ter espaço para os jogos da Atari. Ver post do concerto do Coliseu.

Here We Go Magic, "Pigeons" - 6+/10
Não se ofende ninguém nem se fazem novos amigos; se calhar é demasiado inofensivo para se livrar do rótulo de indie pop (bastante) passageiro.

LCD Soundsystem, "This is Happening" - 8+/10
O último acto nada deve aos seus precedentes; a electrónica pop actual não seria a mesma sem James Murphy. Há momentos quase à altura de "All My Friends" (dizer isto não é dizer pouco).

Los Campesinos!, "Romance is Boring" - 7/10
Pop orelhuda e muito energética: são eles que valem quando o estado de vigília teima em querer ausentar-se.

Massive Attack, "Heligoland" - 7?/10
Já se passou uma dúzia de anos desde o "Mezzanine" e a esse nível já não é possível chegar. Continua a ser-se bastante pertinente. Precisa de mais atenção (daí a interrogação).

MGMT, "Congratulations" - 8+/10
A reinvenção é essa coisa com penas.

Parallels, "Visionaries" - 7/10
Pontuais vocoders, sintetizadores e electrónica pop? Bring them on!

She & Him, "Volume Two - 7/10
Banda sonora para a estação primavera/verão de 2010. Parece-me que já se foi mais longe, mas desilusão não é termo que se aplique assim.

Sleigh Bells, "Treats" - 8/10
As minhas colunas nunca são as mesmas após cada reprodução de "Crown on the Ground".

Spoon, "Transference" - 7/10
Não é um disco que baralhe as cartas e volte a dar, mas um disco mais convencional dos Spoon é sempre avesso à falta de qualidade.

The Drums, "The Drums" - 6+/10
Álbum simpático para o Verão. Consegue trazer alguma alegria a uma estação sazonal sem grande interesse.

The National, "High Violet" - 7?/10
Há esforços em vão, mas há tiros certeiros; o sucessor de "Boxer" não é para ser recebido de ânimos leves. Merece mais atenção do que a obteve até agora.

The Radio Dept., "Clinging to a Scheme" - 6/10
Estes suecos já juntaram o shoegaze e a pop de forma bem mais interessante do que os Pains of Being Pure at Heart e vizinhos. Todos temos dias menos bons, ainda que exista "Heaven's on Fire".

Two Door Cinema Club, "Tourist History" - 6/10
Pop orelhuda óbvia. Interessante e catchy q.b.

Vampire Weekend, "Contra" - 8/10
Há energia do mesmo sítio de "Walcott" e continuam a existir africanismos emigrantes. Parece-me não haver aqui nada a mais.

Wavves, "King of the Beach" - 7+/10
A banda sonora oficial para a praia é esta, não são os The Drums.

domingo, 13 de junho de 2010

Uma piada.



"Heard joke once: Man goes to doctor. Says he's depressed. Says life seems harsh and cruel. Says he feels all alone in a threatening world where what lies ahead is vague and uncertain. Doctor says "Treatment is simple. Great clown Pagliacci is in town tonight. Go and see him. That should pick you up." Man bursts into tears. Says "But Doctor... I am Pagliacci." Good joke. Everybody laugh. Roll on snare drum. Curtains."

Alan Moore, Watchmen

terça-feira, 11 de maio de 2010

Depois da tempestade



O que dizer de "Tell Me What to Swallow", faixa final do álbum de estreia dos Crystal Castles, datado de 2008? É um caso curioso. Do conjunto de faixas do disco, já de si bastante ecléticas, esta é a faixa que parece destacar-se mais do arranjo: pela sua contenção, pela sua secção rítmica reduzida a uma guitarra em strumming, pela sua fragilidade. São momentos musicais que vão ser repescados directamente às influências shoegaze e dream pop do final da década de 80, de uma atmosfera absolutamente etérea e flutuante. Só que estamos perante uma maçã envenenada: enquanto a sua composição melódica nos embala num limbo inegavelmente belo, a sua lírica paira por territórios infinitamente mais negros. Ouve-se a voz de Alice Glass a proferir "Through the wall he threw me, I knew he'd never hurt me, Daddy watch me sleeping", sendo rematada por um suspiro quase maternal e exterior que diz "I've been praying for you silently". "Daddy's love makes me whole, without him I'm insecure, the only girl he'd ever love", ouve-se a seguir, culminando com "Is the one that smells so pure.".

As interpretações são múltiplas, mas parece-me difícil retirar uma mensagem minimamente optimista disto. Não se pode dizer que seja uma música que renuncie às suas origens: que dizer dos tempos de "Paint a Rainbow" de My Bloody Valentine, onde se sugeriam cenários necrófilos, ou mesmo o suícidio sugerido por "Sueisfine"? Não significa isto que haja parte alguma da mensagem perdida no caminho: a sua objectividade é absolutamente dolorosa. "Tell Me What to Swallow" é uma mistura de duas forças quase antagónicas que podem muito bem resultar num colapso (até por parte do ouvinte). Assustadoramente belo.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Alice practice

O Coliseu parecia uma sala demasiado grande para o evento da última terça-feira, a avaliar pela assistência que só completava metade da plateia no início do primeiro aniversário da Nokia Music Store portuguesa.

Não se pode dizer que os Youthless tenham sido a escolha mais acertada para começar a noite: o duo (por vezes trio) parece não ter grande coisa a acrescentar ao panorama musical onde se insere. Também a comunicação fragmentada entre o português e o inglês (sintomas da globalização) não os favoreceu particularmente, ainda que o facto do seu pedido de mosh tenha sido acedido pela audiência mais energética da frente de palco.

Pouco depois das 22h, os The Horrors tomavam conta do palco para debitar 90% do excelente "Primary Colours". Herdeiros directos do pós-punk, a atitude cénica encaixa perfeitamente nas composições negras da banda (ainda que se aproxime da Luz em alguns momentos-chave). A verdade é que a banda inglesa não se ficou aquém da competência que lhes era exigida, ainda que não tenha apresentado grandes rasgos que a transcendessem (em parte culpa do público que os recebeu de forma algo contida e de algumas imperfeições no som). Contudo, e ainda que o final da actuação reservasse "Sea Within a Sea" (música que em circunstância alguma parece falhar), quem os ouviu em Julho na praia do Taboão não perdeu, até aqui, grande acontecimento. Talvez também os The Horrors não tivessem o seu lugar mais favorável frente a uma plateia que ansiava pelo apocalipse que se avizinhava.



O compasso de espera de meia hora pareceu demorar infinitamente mais. Mas finalmente as luzes do Coliseu apagam-se e o palco, com o material de Ethan Kath à esquerda e a bateria ao centro, enche-se de fumo. A histeria enche então os lugares que ficaram vazios no Coliseu. Ouvem-se os primeiros ruídos de "Baptism" e percepciona-se a silhueta de Alice Glass através dos strobes. A explosão dos minutos seguintes não é passível de ser descrita: este foi um dos inícios mais energéticos de que tenho memória de assistir. Parece-me não ser exagero dizer que o público já estava conquistado ao fim da primeira música, a avaliar pelas declarações amorosas debitadas a Alice e pelo histerismo generalizado.

As investidas no primeiro álbum tiveram direito às recepções mais caóticas, ainda que ao vivo as músicas do segundo volume sejam igualmente exponenciadas. A paragem obrigatória em "Alice Practice", "Courtship Dating" ou "Doe Deer" tomaram o Coliseu de arrastão numa actuação absolutamente imparável, onde ainda houve espaço para os momentos mais etéreos de "Celestica", por exemplo, que ganha uma dimensão épica in loco.

A figura de Alice Glass é incortonável: a imagem algo contida é rapidamente dissipada num verdadeiro animal de palco, alternando entre as danças mais esquizofrénicas, o equilibrismo em cima da bateria e o crowd-surf. A verdade é que um concerto dos Crystal Castles transcende todas as barreiras de um acontecimento do seu tipo: é antes uma experiência sensorial sem paralelo irrecusável (ainda que exista quem me confirme que existiam dois pares de indivíduos absolutamente estáticos durante a actuação).




Alinhamento de Crystal Castles (04/05/2010):

Baptism
Fainting Spells
Courtship Dating
Insectica
Doe Deer
Celestica
Empathy
Reckless
Crimewave
Air War
Alice Pratice
Black Panther
Intimate

Exoskeleton
Yes No

domingo, 25 de abril de 2010

Sombra de dúvida



O que esperar de uma banda que fez tanto pelo rock alternativo nos últimos trinta anos como "Star Wars" fez pela ficção intergaláctica? Bem, há que reconhecer que as expectativas são as nossas piores inimigas. Os factos são, contudo, simples: quem foi à procura dos tempos áureos de "Daydream Nation" e "Goo" saiu com a maior desilusão do mundo; quem foi para ouvir "The Eternal" com certeza assistiu ao melhor concerto da sua vida. E quem foi à procura de um meio-termo entre os dois ficou num limbo de incerteza: se por um lado uma nova materialização da banda histórica em território português é uma inegável satisfação, a constatação da quantidade de material que perdeu lugar para o desfile de 90% do mais recente álbum da banda traz consigo alguma tristeza.

Não sejam feitas confusões, no entanto: os Sonic Youth são uma banda do presente. Continuam a debitar energia quase palpável nos seus riffs, na sua distorção e nas palavras quer de Thurston Moore, quer de Kim Gordon (amén). Ninguém diria que este colectivo anda nestas andanças vai para trinta anos, tal é a sua urgência e energia. São também uma banda que não se presta a um desfile de "hits" e a qualquer tipo de nostalgia, mas que antes foge a sete pés do que possa assemelhar-se à sua zona de segurança (caso raro entre bandas desta longevidade). Tudo isto é de louvar, claro.

Mas, uma vez mais, as expectativas são as piores inimigas do espectador. E o que aconteceu no Coliseu dos Recreios na passada quinta-feira foi uma das maiores descargas de rock a que vamos ter oportunidade de assistir durante este ano. Afinal de contas, os Sonic Youth não andam cá para "massajar a História".

Alinhamento:

No Way
Sacred Trickster
Calming the Snake
Anti-Orgasm
Stereo Sanity
Malibu Gas Station
Walkin Bue
Poison Arrow
Schizophrenia
Antenna
Leaky Lifeboat (For Gregory Corso)
What We Know
Massage the History

The Sprawl.
'Cross the Breeze

Shadow of a Doubt
Death Valley '69

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Eis o messias



"Life of Brian" é o filme mais hilariante de sempre. Bem, talvez não seja. Mas depois de cada visionamento parecem não restar grandes dúvidas quanto a isto. Pois bem que esta história de um indíviduo judeu que se junta a uma colectividade denominada People's Front of Judea (não Judean People's Front e muito menos Popular Front of Judea) transporta para a época desse grande mito, de seu nome Jesus Cristo, o humor sem tempo nem idade dos Monty Python. Há aqui cenas de antologia da comédia de sempre: o apedrejamento do indíviduo que profere o nome de Jeová em vão por parte de mulheres disfarçadas de homens, o imperador Pontius Pilate a testar a sonoridade do nome do seu amigo Biggus Dickus perante os seus lacaios, ou a conversão imediata e inconsequente de um homem à donzela Loretta. E isto surge na entrega de importantes e recorrentes mensagens sobre os dogmas religiosos católicos, sem que o objectivo seja propriamente ferir susceptibilidades. Até porque, como se canta em coro no final, always look on the bright side of life.

terça-feira, 13 de abril de 2010

A gaiola é essa coisa com penas

Estrutura de gaiola? Então.
A gaiola é uma coisa muito relativa.
Se eu fosse um pássaro não gostava de viver numa estrutura de gaiola. Muito menos fazia cenas em cima das pessoas. Ser pássaro é uma coisa muito relativa também.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A repetição é essa coisa com penas, ou como descobrir que se ouviu um álbum mais vezes do que se imaginaria

- "Qual é a faixa que vem a seguir à «Scientist Studies» no alinhamento do We Have the Facts and We're Voting Yes dos Death Cab?"
- "Então, é a «Title Track»."

segunda-feira, 29 de março de 2010

Ghost in the machine



A certo ponto, e na sequência de uma invasão de um encontro de scanners por homens de Revok que acaba num abrupto incêndio e consequente fuga, a personagem interpretada por Jennifer O'Neill apresenta uma expressão absolutamente ausente e perturbada. A personagem encontrava-se a meio de um scan e, quando chamada à realidade, profere "Agora eu sei qual é a sensação de morrer". Refiro-me portanto ao filme "Scanners" de David Cronenberg. E este momento acaba por ter um significado de rotura, na medida em que os scanners são colocados num contexto inegavelmente antropológico: estes seres possuem, afinal, sentimentos e emoções que transcendem as suas capacidades neurológicas e telepáticas. Pois que esta fusão máquina-humano não é propriamente inédita na filmografia do realizador canadiano (posteriormente em Videodrome onde sinais de televisão viriam a estar em sintonia com corpos, entre muitos outros casos). A questão está na abordagem, que aqui se encontra intrínseca à genese humana e que com ela vive pacificamente. De certa forma, existe alguma utopia na visão de Cronenberg, de aproximação quase íntima do Humano à Maquinaria, mas o realizador não está particularmente interessado em apregoar as vantagens disto: consequências devastadoras são desde cedo concretizadas e o limiar entre as duas entidades torna-se o território de exploração de Cronenberg.

Nota: Dentro deste contexto, e para uma abordagem bastante diferente, e impossível não referir o primeiro tomo de "Ghost in the Shell".

sexta-feira, 26 de março de 2010

É bom ver-te sem as correntes, Ricardus.

Impus a mim mesmo uma espécie de auto-controlo relativamente a informação relacionada com a série LOST quando criei este espaço. Bem sei que, podendo, todas as quartas-feiras existiria pano-para-mangas para muitas linhas sobre este assunto, mas a verdade é que existem outras coisas a serem igualmente tratadas. Quebro esse silêncio para falar sobre o episódio desta semana, "Ab Aeterno", sendo estas palavras dirigidas apenas aos espectadores regulares desta série (existem spoilers sobre o episódio em questão a seguir à imagem).




Uma concepção bastante simples de Bem e de Mal com a Ilha no seu epicentro. Será?


Richard era, até esta semana, uma das figuras mais intrigantes da mitologia de LOST: um indivíduo que aparentemente não envelhece, que se encontrava na Ilha antes da Iniciativa Dharma e que era intermediário de Jacob perante os indíviduos do Templo (entre outros). Assim, um episódio centrado na sua figura era um dos marcos mais antecipados desta derradeira temporada. E a verdade é que tudo é concretizado: mas vamos por partes.

Em primeiro lugar, temos a tragédia grega mais uma vez ensaiada no amor entre Richard e Isabella. Este ponto fulcral acaba por ser o epicentro de todo o "Destino" de Richard: a busca pela redenção através da fé surgiu muitas vezes representada na série, mas talvez nunca de forma tão desesperante e desorientadora. Contudo, a redenção acaba por ser aparentemente encontrada no encontro com Jacob (mais tarde no episódio descobrimos que isto não é tão linear quanto isso). A cena de reencontro do casal no limiar vida/morte (com Hurley como intermediário) é absolutamente desarmante.

Em segundo, há a consagração da mitologia de uma série sem paralelo. Todo o episódio é constituído por referências e paralelismos a elementos regularmente abordados em LOST, bem como aos mais distantes. Pois que, neste momento, se começa a ter uma percepção um pouco mais concreta da globalidade destes elementos que nos têm vindo a ser apresentados desde o episódio-piloto, sendo constantemente reinventados nas mais adversas condições.

Por último, a introdução física ao conflito Jacob/Esau (Esau designa, em termos práticos, o indíviduo de negro). Ainda que os últimos dez episódios tenham girado em torno desta disputa, na realidade escassas vezes tinhamos assistido à materialização deste conflito omnipresente. A trama ganha uma forma absolutamente nuclear mais uma vez e o que a coloca nesta posição é precisamente este dilema tão típico da série: em que facções residem, realmente, o Bem e o Mal? Esta situação tem sido miraculosamente tratada com imparcialidade até à data, transportando estas concepções para julgamentos morais formulados por Jacob e Esau, mas a verdade é que estes parecem ter o mesmo valor de verdade de os de um qualquer mortal.

Assim, parece-me estar encontrada a segunda obra-prima desta sexta temporada, precedida por "Sundown", claro está.
 
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